quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Dica

" HISTÓRIA DO CINEMA IRAQUIANO SOB O PONTO DE VISTA (tão bom quanto qualquer outro) DA ESTÁTUA DE SADDAM O cinema iraquiano está entre os mais cults do planeta. Obviamente, nâo agrada ao povâo acostumado com as babas de Hollywood e nem satisfaz os falsos alternativos que se incomodam com roteiros precários, cenários toscos, direções frouxas e performances amadoras. Se você é mesmo um cinéfilo cabeça, nâo vai deixar que esses detalhes o privem de filmes incomparáveis e que têm uma história única.Quando Saddam Hussein construiu sua estátua, obrigou a que em todos os filmes já produzidos no Iraque fossem enxertadas cenas com ela. Era ridículo ver cenas novas com artistas que nâo tinham participado da produção original e a estátua em filmes muito mais velhos do que ela, mas enfim, Saddam mandou. Os filmes novos, é claro, passaram a ter obrigatoriamente cenas com a estátua.Aí os americanos derrubaram Saddam e a estátua e decidiram que todas as cenas com estátua nos filmes produzidos na era Saddam deveriam ser expurgadas, mas nâo nos anteriores, pois neles ficavam grotescas e mostravam o poder maligno do ditador. Como se tratava de cortes, foram produzidas novas cenas, com novos artistas, diálogos pró-americanos e a bandeira dos Estados Unidos, para substituir as que foram retiradas. Os filmes novos passaram a ser produzidos já com esse espírito de amizade iraco-americano estampado nas imagens e diálogos.Eis que certo dia os guerrilheiros talebans tomaram o Iraque de assalto e mandaram destruir todas as estátuas, mulheres e os filmes também. Um militar americano que fugia no último avião para Guantánamo, cinéfilo e colecionador, conseguiu salvar um exemplar de cada filme. Porém, chegando a Cuba, o avião deu pane e foi obrigado a aterrisar no aeroporto de Havana. A Guarda Nacional cubana confiscou o material e levou-o para Fidel Castro.O Comandante gostou muito dos filmes iraquianos, mas nâo das cenas de apologia aos Estados Unidos, e mandou cortá-las - mas só nos filmes rodados durante a ocupação americana. Nos antigos, ele mandou que continuassem, para demonstrar como o capitalismo ianque pode corromper e mutilar obras de arte. Fidel também determinou que fossem inseridas em todos os filmes novas cenas, com artistas cubanos e hinos patrióticos, como presente do povo revolucionário latino-americano a seus irmâos do Iraque. Sob a inspiração do líder, foram rodadas novas películas iraquianas no solo livre de Cuba e, para completar seu trabalho cultural, ele ordenou que o som de todo o acervo fosse regravado no idioma castelhano, já que poucos cubanos entendem árabe.Durante uma crise econômica, Cuba teve que vender a magnífica coleção para um magnata nipo-paulistano, adepto do karaokê e do mangá. Ele colocou legendas japonesas em todos os filmes e cenas novas com animações desenhadas pelos mestres dos quadrinhos, além de trocar alguns dos arroubos patrióticos de Castro ("nâo me deram isso de graça, eu comprei, tenho esse direito") por BGs instrumentais, de forma que durante os discursos o ditador parece estar cantando e o espectador é convidado a dublá-lo.Chegou o dia em que uma coalizão de xiitas e curdos apoiados pela China retomou os escombros do Iraque das mâos dos fanáticos talebans. Os filmes foram re-dublados em dialetos locais a partir das legendas japonesas (o som original fora apagado), ganharam sublegendas chinesas (como são muitas letras, ocupam quase metade da tela) e, a pedido do governo de Beijing, as cenas onde aparecem a estátua de Saddam, a bandeira americana e Fidel Castro foram intercaladas com outras rodadas na China, onde camponeses recitam provérbios milenares sob a égide da efígie do Camarada Mao, tudo isso muito bem alternado com takes do caótico trânsito de Shanghai, retrato vivo da prosperidade do povo chinês.Desses filmes originais, dos quais só havia um exemplar de cada, agora foram tiradas cópias que agora percorrem o mundo, mostrando toda a vitalidade e criatividade do cinema iraquiano. Num cineclube perto de você."

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