quarta-feira, 28 de maio de 2008

Gênio do crime - João Carlos Marinho Silva

O Gênio do Crime conta a história de três meninos de classe média de São Paulo que ajudam a desmascarar uma quadrilha de bandidos. O crime não é dos mais hediondos - numa gráfica clandestina, a quadrilha imprimia figurinhas falsificadas de um álbum sobre futebol - mas, quando um dos garotos é apanhado em flagrante, o perfil dos bandidos se torna mais sombrio, e por isso mesmo mais realista. Realista e, ao menos naquele tempo, assustador. Afinal, na época em que o li a violência que hoje faz parte do nosso cotidiano ainda não se tornara tão banal, e a idéia de uma criança (mesmo uma como o Bolachão) mantida em cativeiro, ameaçada e à beira de ser torturada e morta por criminosos bastava para deixar o coração em sobressalto. O suspense, porém, é apenas um dos pontos altos do livro de Marinho, que - outros já disseram, mas eu assino embaixo - promoveu uma verdadeira revolução na literatura infanto-juvenil, com a temática policial, uma trama ágil, diálogos soltos e naturais, personagens inesquecíveis (quem não lembra do Detetive Invicto?) e um humor que perpassa todo o livro, com elementos que denotam um finíssimo poder de observação. Algumas cenas ficaram para sempre em minha memória: a da conversa entre os três amigos, entremeada pela descrição de Bolachão a comer torradas, num timing perfeito; a do mesmo Bolachão em seu namoro com Berenice, sua gentileza máxima consistindo em abrir mão do último croquete oferecidos pela menina; por fim, a da prisão dos bandidos, em que um constrangido "Puxa vida, que coisa, né?" é a única coisa que o herói é capaz de dizer ao filho pequeno de um dos captores, responsável por descobrir e denunciar, involuntariamente, o crime de seu pai. Tosco (diríamos hoje), mas pensem bem: dizer mais o quê? O que mais poderia ser dito que não soaria como uma lição de moral ou pieguice inútil? É dessa moral, dessa pieguice, presentes em boa parte da literatura para crianças e jovens, que Marinho consegue se manter afastado. E faz isso com mestria, ora através da inversão do clichê - o Sr. Tomé, dono da fábrica de figurinhas, participa de boa vontade da farsa usada pelos meninos para descobrir a gráfica clandestina, o que inclui enganar seus pais e um diretor de escola - ora através das tiradas desconcertantes de personagens como Berenice: "os garotos da segunda série só sabem contar anedotas elementares e são muito prosaicos". Se a Luciana ficar assim, estou perdida. Mas, enfim... talvez tanto uma como outra estejam dentro do mesmo espírito de "Independência ou Morte" da Emília de Monteiro Lobato.O Gênio do Crime foi publicado em 1969. Meu exemplar era, para variar, da Ediouro. Li outra vez, não sou mais criança, é verdade. Li com outros olhos, mas, mesmo assim, tenho certeza que revivi os bons momentos que passei em companhia desse livro.
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